sábado, 20 de fevereiro de 2010

Política e cidadania

Participação: palavra de ordem

Volta e meia, a sociedade chama seus membros para participar. Participar de uma missa, de um torneio esportivo, deuma campanha de aquisição de agasalhos etc. Participação, essa é a palavra de or­dem. Porém, será que já paramos para pensar nessa tal participação?

Interessante reparar, antes de mais nada, que o ato de participar nunca é feito sozinho; não é um ato isolado de alguém que não tem companhia, mas algo que fazemos com os outros.

O solidário, que está sempre disposto a participar, porta-se desta maneira: está em comunhão; vive ansioso pelo encontro; faz questão de trocar as suas experiências de vida com os outros. Sabe muito bem que viver é acima de tudo con-viver. O solidário é o companheiro; você já pensou sobre o significado dessa palavra? Ela vem do latim, cumpanere, e significa algo mais ou menos como "aqueles que comem juntos o pão da vida". Logo, o companheiro, o solidário, é aquele que divide sua vida com os outros, aquele para quem a vida não é apenas uma co-existência com os outros, mas uma verdadeira convivência, um viver com os outros.

Mas há outros que são diferentes: um indivíduo que está sempre em seu canto, não compartilha seus desejos, suas emoções, seus pensamentos, enfim, sua vida com os outros. Pode-se dizer que tal indivíduo é um marginalizado, não por que foi discriminado, mas porque ele mesmo se isolou dos outros. Essa vivência à margem tem como resultado a conside­ração de que o ser humano pode e, às vezes, até deve se isolar dos demais. Mas como podemos fugir do encontro se, queiramos ou não, estamos sempre partilhando uns com os outros?

O poeta inglês John Donne começou um poema com o verso: "Ho­mem algum é uma ilha." Somos seres sociais, "animais políticos" como já definiu Aristóteles há 2.500 anos atrás, o que nos leva a necessariamente tomar parte de grupos humanos, a viver nossa vida junto a muitas outras pessoas iguais a nós. E por isso que, por mais que queiramos escapar, fugir para uma ilha deserta, a sociedade está sempre atrás de nós. Até podemos nos isolar por alguns instantes, mas, ao irmos para a escola, para o traba­lho, para o clube, para a igreja ou para qualquer outro lugar, estaremos encontrando pessoas, estaremos participando de grupos sociais.

O ato de participar é uma condição humana da qual não podemos escapar. Quem pensa que escapa, está iludindo a si mesmo.

As relações humanas e o poder

Convivendo com outros homens, os conflitos de vontades e interesses são sempre inevitáveis. No momento do impasse, que é uma luta entre diferentes desejos, um indivíduo quer impor ao outro a sua vontade. Normalmente quem vence esse conflito é aquele mais bem aparelhado: dependendo da circunstância, pode ser o mais forte, o mais inteligente, o mais jovem, o mais bonito...

A capacidade de transformar as vontades dos outros na sua vontade é aquilo que chamamos de poder. Numa primeira aproximação, o poder seria a capacidade de realizar qualquer ato ou ação; um aspecto importante é que ele pressupõe até mesmo a oposição, constituindo, então, a capacidade de superar essa oposição pela força, impondo-se a ela. De modo geral, o poder seria a potência para realizar determinado desejo ou vontade.

O jogo de poder apresenta-se, assim, como um jogo de vontades, no qual a vontade de um — o mais forte, por alguma razão — acaba se impondo sobre a vontade de outro ou outros. A noção de poder implica também a capacidade de ter suas ordens obedecidas. Aquele que é investido de poder — um indivíduo ou uma instituição — tem a chance e os instrumentos para potencializar suas vontades, transformando-as em atos.

Não podemos, entretanto, julgar que a ação do poderoso dá-se unicamente no sentido de subjugar e neutralizar a(s) vontade(s) alheia(s). Embora em casos bastante específicos a ação hegemônica do poder só seja possível por meio da neutralização das demais vontades — é o caso do totalitarismo —, de modo geral, o poder age pelo convencimento e pela manipulação das vonta¬des alheias. Assim, em vez de agir pela neutralização das vontades, o poder age muito mais por meio de sua transformação; tomar o conjunto das vontades diferentes e torná-las uma, a vontade do poderoso, com a qual os demais devem concordar.

Nessa visão clássica do poder, ele é compreendido como uma coisa que se concentra em determinados espaços de um grupo social: o lugar do poder é o Palácio do Governo, é a Câmara dos Deputados, ou mesmo o próprio corpo do rei, que a todos governa.

Se apenas um tem o poder, todos os outros indivíduos não têm poder algum: é uma sociedade servil. Mas de onde viria o poder desse indivíduo? Por que todos o obedecem?

Um filósofo do século XVI chamado Etienne de la Boétie, num pequeno livro, o Discurso da servidão voluntária, forneceu a pista para entender a charada: quando um indivíduo manda, seu poder vem não dele mesmo, mas dos outros que se submetem. De sua perspectiva, o que sustenta o tirano não é a sua própria autoridade, mas a entrega dos súditos, isto é, a dominação só é possível com o concurso direto dos próprios dominados. Segundo ele, em torno do tirano constrói-se uma rede de interesses. O tirano tem 6 assessores diretos, cada um deles tem mais 60 empregados e assim por diante, de modo que toda a sociedade acaba envolvida nessa rede de interesses.

Desse modo, o que garante o poder do tirano é uma rede de micropoderes e interesses que se constrói a sua volta, o que, ao invés de enfraquecer esse poder central pela diluição, fortalece-o, sendo seu próprio sustentáculo e sua própria garantia.

Mas, se os indivíduos se recusarem a servir, acaba o poder do tirano. Portanto, a sociedade servil depende do consentimento dos indivíduos; se eles resolverem não mais obedecer a um rei e solucionar seus próprios problemas políticos, eles podem construir novas formas de relação social.

A política

Ao decidir fazer algo, o ser humano deve levar em conta seus interesses. O interesse é o objetivo que a decisão poderá alcan¬çar. Por exemplo: quando alguém decide estudar, acredita que, com um nível mais alto de conhecimento, poderá conseguir uma ascensão, seja profissional, social ou interior. Esse mesmo alguém prefere o estudo ao analfabetismo. Estão implicados nesta ação o interesse em ascender e a decisão de se alfabe¬tizar. Em filosofia, isso é o que chamamos de valor. Todo ato humano está fundamentado em determinados valores, em determinados interesses; para dizer de outra maneira, sempre que fazemos alguma coisa, temos em mente algum objetivo a ser alcançado com aquela ação.

Até aqui, a discussão se fez em um nível particular. A discussão sobre a orientação das ações humanas em caráter particular é chamada de ética; é ela quem pode nos ensinar a bem conduzir nossas vidas. Mas, quando alguém procura conduzir a um público maior seu interesse e sua decisão, a fim de que esse público se engaje, ele está exercendo aquilo que denominamos de política. Se a ética é a reflexão sobre a fundamentação dos atos humanos em sua particularidade — isto é, no que diz respeito à vida privada de cada indivíduo —, a política é a reflexão sobre os atos humanos que se cometem em sociedade, na vida pública. O engajamento do público se dará pelos interesses que estiverem em jogo.

Portanto, política é a tomada de decisões que visem objetivar interesses que irão refletir na coletividade. Deve ficar claro para você que ética e política devem sempre andar juntas, pois, se vivemos em sociedade, é muito difícil distinguir se determinadas ações que fazemos terão conseqüências apenas privadas ou se estenderão para outras pessoas, na esfera pública. Apenas um exemplo: se alguém decide estudar para conseguir certa ascensão social, isso não diz respeito apenas a essa pessoa; para a coletividade, faz muita diferença tomar parte dela um indivíduo analfabeto ou um indivíduo bem formado.

No momento em que se fala sobre política, logo vem à mente o governo. Faz-se a relação de que fazer política é governar. Se pensarmos assim, apenas poucas pessoas "fazem política". Mas será que, de fato, a política é apenas exercida na esfera do governo?

Também se fala muito que vivemos sob a forma de governo chamada democracia. Abrimos um jornal ou uma revista e lá está essa palavra estampada. Na televisão e no rádio também se diz muito sobre ela. Mas que coisa é essa? O que é a democracia? Você já pensou a respeito?

Texto extraído do livro Ética e cidadania: caminhos da filosofia:
elementos para o ensino de filosofia / coord. de Sílvio Gallo,
Campinas,SP : Papirus, 1997 (5ª. edição)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Boas vindas

Queridos e queridas,

Este blog tem a finalidade de trazer a discussão da filosofia para o nosso cotidiano! Pensar filosoficamente nossas ações básicas e assim nos aproximarmos dessa fabulosa ciência.

O metamorphosis3camoes foi criado para viabilizar nossos projetos acadêmicos através de debate e apresentações de trabalhos como pesquisas e resenhas, mas também para integrar e sociabilizarmos nossas angústias e inquietações, sonhos e anseios!

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Excelente trabalho!!!

grande abraço

Edvaldo Lopes